10/02/2026
Copiado e traduzido de Cuál es el verdadero ayuno 1), uma das reflexões na capela Santa Marta de 16 de fevereiro de 2018:
Quaresma: um tempo privilegiado para penitência e jejum, mas que tipo de penitência e jejum o Senhor espera de nós? O risco, na verdade, é “mascarar” uma prática virtuosa, ser “inconsistente”. E não se trata apenas de “escolhas alimentares”, mas de estilos de vida pelos quais devemos ter a “humildade” e a “consistência” de reconhecer e corrigir nossos próprios pecados. Essa é, em essência, a reflexão que o Papa ofereceu aos fiéis no início da Quaresma, durante a missa celebrada em Santa Marta na manhã de sexta-feira, 16 de fevereiro [de 2018].
A palavra-chave da meditação, sugerida pela liturgia do dia, foi “jejum”: “Jejum diante de Deus, jejum que é adoração, jejum com seriedade”, porque “o jejum é uma das tarefas a serem feitas durante a Quaresma”. Mas não no sentido de alguém que diz: “eu como só refeições quaresmais”. De fato, comentou Francisco, “essas refeições formam um banquete! Não se trata de mudar o que come ou de preparar o peixe dessa ou daquela forma para torná-lo mais saboroso”. Caso contrário, tudo o que se faz é “continuar o carnaval”. Ele enfatizou que é a palavra de Deus que nos adverte a “fazer com que nosso jejum seja genuíno. Verdadeiramente genuíno.” E acrescentou: “Se você não puder fazer um jejum total, daquele tipo que faz você sentir fome até os ossos”, ao menos “faça um jejum humilde, mas verdadeiro.”
A respeito disso, na primeira leitura (Isaías 58:1-9), “o profeta destaca muitas incoerências na prática da virtude”, e precisamente, “esta é uma delas”. A lista de Isaías é detalhada: “Dizeis que me procurais, falais comigo. Mas não é verdade”, e “No dia do vosso jejum, cuidais dos vossos próprios negócios”: isto é, enquanto “o jejum é um despojamento”, preocupamo-nos em “ganhar dinheiro”. E ainda: “Explorais todos os vossos trabalhadores”: isto é, explicou o Papa, enquanto dizemos: “Agradeço-te, Senhor, porque posso jejuar”, desprezamos os trabalhadores que, sobretudo, “devem jejuar porque não têm o que comer”. A acusação do profeta é direta: “Eis que jejuais apenas para litigar e brigar, e para ferir as mãos dos malfeitores”.
É um duplo padrão inaceitável. O Papa explicou: “Se queres fazer penitência, faze-a em paz. Mas não podes, por um lado, falar com Deus e, por outro, falar com o diabo, convidando ambos ao jejum; isto é incoerente”. E, seguindo sempre as indicações das Escrituras — “Não jejueis mais como hoje, para fazer ouvir a tua voz no alto” — Francisco advertiu contra o exibicionismo incoerente. E contra o comportamento daqueles que, por exemplo, dizem sempre: “Somos católicos, praticamos; pertenço a esta associação, jejuamos sempre, fazemos penitência”. A eles, idealmente, perguntou: “Mas jejuais com coerência, ou fazeis penitência incoerentemente, como diz o Senhor, com alarde, para que todos vejam e digam: ‘Que pessoa justa, que homem justo, que mulher justa?’”. Isto, na verdade, “é um truque; é maquiar-se de virtude. É maquiar-se de mandamento”. E acrescentou que é uma “tentação” que todos nós já sentimos em algum momento, “de fingir em vez de levar a sério a virtude, aquilo que o Senhor nos pede”. Pelo contrário, o Senhor “aconselha os penitentes, aqueles que se abstém de maquiar-se, mas com seriedade: ‘Jejuem, mas usem maquiagem para esconder que vocês estão fazendo penitência. Sorriam, sejam felizes.’ Diante de tantos que ‘têm fome e não podem sorrir’, esta é a sugestão para o crente: ‘Busque a fome para ajudar os outros, mas sempre com um sorriso, porque vocês são filhos de Deus e o Senhor os ama muito e lhes revelou essas coisas. Mas sem incoerências.’
Neste ponto, a reflexão do Papa aprofundou-se ainda mais, motivada pela pergunta: ‘Que tipo de jejum o Senhor quer?’ A resposta também vem das Escrituras, onde lemos primeiro: ‘Inclinar a cabeça como uma cana.’ Ou seja: humilhar-se. E a quem pergunta: ‘O que devo fazer para me humilhar?’, o Papa responde: ‘Mas pense nos seus pecados. Cada um de nós tem muitos.’ E ‘envergonhe-se’, porque mesmo que o mundo não os conheça, Deus os conhece bem.” Portanto, este é o jejum que o Senhor deseja: verdade e coerência.
E tem mais: “desfazer as amarras da maldade” e “desfazer os grilhões do jugo”. O exame de consciência, neste caso, centra-se no objetivo da nossa relação com os outros. Para melhor se fazer entender, o Papa deu um exemplo muito prático: “Penso em muitas trabalhadoras domésticas que ganham o pão com o seu trabalho” e que muitas vezes são “humilhadas e desprezadas”. Aqui, a sua reflexão abriu espaço para uma recordação pessoal: “Nunca consegui esquecer uma vez, quando fui à casa de um amigo, ainda criança. Vi a mãe bater na empregada doméstica. 81 anos… Nunca me esqueci disso”. Disso decorre uma série de perguntas, idealmente dirigidas a quem emprega pessoas: “Como as tratas? Como pessoas ou como escravas? Pagas-lhes o que é justo, dão-lhes férias? É uma pessoa ou um animal que vos ajuda em casa?” Um apelo à coerência que se aplica também às pessoas religiosas: “Em nossas casas, em nossas instituições: como me relaciono com o empregado que tenho em casa, com os empregados que trabalham em minha casa?” Aqui, o Papa acrescentou outra experiência pessoal, recordando um senhor “muito culto” que “explorava sua empregada doméstica” e que, quando lhe foi apontado que isso era um “pecado grave” contra pessoas “feitas à imagem de Deus”, objetou: “Não, Padre, tem que diferenciar: essas pessoas são inferiores”.
Por isso é necessário “desfazer os grilhões do jugo, soltar as cordas do mal, libertar os oprimidos, romper todo jugo”. E, comentando o profeta que adverte: “Reparti o teu pão com o faminto, acolhe em tua casa os pobres e os sem-teto”, o Papa contextualizou: “Hoje debatemos se devemos ou não dar abrigo àqueles que vêm pedir…”. E as instruções continuam: “Vista os nus”, mas “sem negligenciar a sua própria família”. Este é o verdadeiro jejum, aquele que envolve a vida diária. “Devemos fazer penitência, devemos sentir um pouco de fome, devemos rezar mais”, disse Francisco; mas se “fizermos muita penitência” e não vivermos o jejum desta forma, “a semente que brotará disso” será “a semente do orgulho”, a semente daqueles que dizem: “Obrigado, Senhor, porque posso jejuar como um santo”. E isso, acrescentou ele, “é o truque feio”, não o que o próprio Jesus sugere “para que os outros não vejam que estou jejuando” (cf. Mt 6,16-18). A pergunta que devemos nos fazer, concluiu o Papa, é: “Como me comporto com os outros? Meu jejum ajuda os outros?” Porque, se isso não acontece, esse jejum “é fingido, é inconsistente e leva você ao caminho de uma vida dupla”. É necessário, portanto, “pedir humildemente a graça da coerência”.
(As duas imagens são, na ordem em que aparecem, de The Cleveland Museum of Art na Unsplash e de Annie Spratt na Unsplash )