Dizer que //pimenta no olho dos outros é refresco// não se encaixa bem no que eu quero dizer aqui, se bem que se encaixa bem no espírito de deboche do raio que caiu nos manifestantes bolso-golpistas em Brasília ontem.
Acontece que o raio acendeu a verve religiosa do lado de cá, mas em uma de suas piores versões, ainda que seja uma das versões mais difundidas de qualquer religião: o pensamento religioso mágico.
Por um lado é verdade que Deus não só acompanha nossas vidas, individual e coletivamente, como intervém nos acontecimentos (na Igreja Católica isso se chama [[https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2c1_198-421_po.html#:~:text=Deus%20realiza%20o%20seu%20des%C3%ADgnio%3A%20a%20divina%20Provid%C3%AAncia | divina Providência]] - no número 302 do texto no link, caso não vá direto), mas ela é voltada para o projeto de amor e salvação que Jesus veio anunciar no Evangelho, e não para destruir os inimigos ou servir entretenimento de qualidade.
A ideia contrária, de que Deus anda lançando raios literais ou metafóricos por aí conforme os erros da humanidade, já serviu para atacar o lado de cá, quando a AIDS foi interpretada como castigo divino contra a homossexualidade lá nos anos 80 do século passado, por exemplo.
Isso aparentemente era comum nos tempos da cristandade((provavelmente não menos comum do que é hoje em dia, tanto é que o bolsonarismo explorou essas ideias para chegar ao poder)), e a autora Karen Armstrong mostra como uma relação incestuosa entre política e religião é danosa tanto do ponto de vista religioso quanto do ponto de vista político ([[https://www.mrclmlt.com.br/w/#armstrong1:~:text=Raz%C3%A3o%20e%20misticismo | aqui]] tem o trecho no qual ela explica isso). Isso é tão ruim quanto a tentativa de isolar completamente as esferas políticas e religiosas.
Se ignorar as pessoas seriamente feridas pela irresponsabilidade do Nicolas Ferreira, que não vai sofrer nenhuma consequência por ter arrastado aquela gente para uma floresta de equipamentos de metal num descampado no meio de uma tempestade, fica difícil não rir. Mas é um riso com o retrogosto amargo da aceitação das palavras do Senhor da Guerra na [[https://www.vagalume.com.br/legiao-urbana/a-cancao-do-senhor-da-guerra.html | canção]] do Legião Urbana, //lembre-se sempre que Deus está do lado de quem vai vencer//, em vez da aceitação das palavras de Jesus, que vão num sentido bem contrário: que vos ameis uns aos outros ([[https://www.a12.com/biblia/novo-testamento/sao-joao/15 | João 15, 9-17]]).